Em quase 30 anos de leituras de
Agatha Christie, cheguei a conclusão de que tenho o mesmo gosto que ela. As
histórias com enredos e ambientes familiares são os que mais me fascinam,
principalmente quando se trata de uma obra policial escrita por ela mesma.
Primeiro, porque os personagens
são complexos e sempre nos demonstram ações que, no momento da leitura não
compreendemos bem, mas depois, nos momentos finais (onde as revelações vêm Ã
tona) tudo faz sentido. E segundo, porque sempre achamos que podemos deduzir
ações e pensamentos dos personagens baseados na posição genealógica em eu que
se encontra. Por exemplo, no livro Punição para a Inocência, em determinado
momento eu pensava “esse personagem não pode ter feito isso, ela parece uma
filha tão boa e tão inteligente”, baseado no que o personagem repassava para
mim e mais tarde descubro o que ela escondia e que a própria escritora cuidou
de me mostrar. Casos familiares são complexos, talvez, por isso, sejam também
os preferidos de Agatha.
A Casa Torta é, dentre tantos
dramas familiares de Agatha, o seu melhor.
Sinopse: Nos arredores de Londres
há uma mansão com uma inusitada caracterÃstica: ela é torta. É ali que o
milionário octogenário Aristide Leonides mora com a esposa, cinquenta anos mais
jovem, além de filhos, noras, netos e uma cunhada, irmã da primeira mulher.
Quando a polÃcia descobre que o patriarca foi envenenado, todos os habitantes
da casa se tornam suspeitos, e a discórdia passa a imperar entre os membros da
famÃlia – sobretudo, olhares desconfiados recaem sobre a jovem viúva. A neta
mais velha de Aristide, Sophia, junta-se ao namorado para tentar chegar ao
fundo do mistério sobre a morte do avô. Muito mais que um romance policial, A
casa torta foi considerado pela própria Agatha Christie como um de seus
melhores livros.
Este foi um dos casos mais difÃceis
que li, sim, devo admitir. Não quero entregar nenhuma informação importante da
trama, mas em todos os momentos os personagens se tornam culpados ou têm a
possibilidade de serem o culpado. Mas aà chegamos a um ponto crucial: O Motivo.
Em uma famÃlia de pessoas ricas, com um casarão e uma fortuna enorme, onde
havendo a morte do patriarca, todos ganhariam com isso. Todos já tinham, pré-estabelecida, uma boa herança. Se precisassem de
dinheiro, a história deixa claro que o Sr. Aristides não se negaria a ajudar a
ninguém. Então, motivo, aparentemente,
não há. Na própria narrativa encontramos personagens desconcertados quanto a
isso.
“Todo mundo nesta maldita casa
teve meios e oportunidade. O que eu quero é motivação”
(A Casa Torta, AGATHA CHRISTIE)
Então, pensando assim, ninguém
tinha motivo, assim, qualquer um poderia ter feito. Na verdade eu levei esse
pensamento até as últimas páginas e quando descobri quem havia envenenado o
velho Aristides, fiquei sem chão. Não podia acreditar no que eu estava lendo.
Então veio flashes da leitura na minha cabeça, lembranças de passagens e a
tradicional explicação do assassino.
O que me deixou sem chão foi
justamente o ponto chave da história toda, não foi o assassino, não foi a arma
utilizada, nem os meios, foi exatamente o motivo.
Esse livro é muito mais do que
uma história policial, é uma narrativa sobre a consciência de membros que
habitam a mesma casa e em que todos têm a oportunidade, todos. Mas apenas um será forte o bastante, ou talvez a palavra não
seja força, pode ser que, astúcia seja melhor, para dar cabo da vida do
patriarca.
Agatha Christie se consolida como
a melhor escritora de Romances Policiais de todos os tempos e, para quem quer
começar a lê-la, indico que comece por esse livro, ou por outro drama familiar
da autora.

