A voz de Capitu: toda história tem mais de um lado.

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IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA: Protagonistas da Série Reign (Toby Regbo, Adelaide Kane e Torrance Coombs) 

(Contém Spoilers)


Capitu é, talvez, a personagem feminina mais marcante da Literatura nacional Brasileira. Criada por Machado de Assis e co-protagonista do livro Dom Casmurro, paira sobre ela a dúvida mais inquietante da nossa literatura: Capitu traiu ou não Bentinho?

Alguns estudiosos dizem que a dúvida é o que menos importa, mas cá pra nós, sabemos que é essa a característica fundamental que vai fazer com que o leitor fique dias a fio pensando numa provável resposta.

Pensando nessa resposta é que Domício Proença Filho (professor e pesquisador em língua portuguesa e literatura brasileira, membro da ABL) deu voz a esposa do Dr. Bento Santiago e reimaginou o romance alterando a voz narrativa. Dessa vez não é o alcunhado “Dom Casmurro” quem relata os fatos, mas a suposta traidora. Capitu conta a sua versão dos fatos na narrativa de Capitu: memórias póstumas.


No romance original de Machado encontramos Bentinho e Capitu, ainda crianças, se gostando. A medida que crescem os sentimentos vão se desenvolvendo e nasce o filho do casal, Ezequiel, é que as dúvidas sobre a fidelidade da esposa tomam contornos mais diretos dentro da narrativa.

O marido, achando que a esposa o traíra com seu melhor amigo, Escobar, passa a contar como o romance tão doce, no início da narrativa, se transforma em um relacionamento conturbado e cheio de amarguras. É fato que o que lemos é apenas a visão do próprio narrador e aqui, esse aspecto depõe contra Bentinho, pois é o próprio que conta os fatos, e, claro, devemos pensar que conta de acordo com o que lhe convém.

Por ser narrado em primeira pessoa, em momento algum é dada a Capitu a chance de se explicar. Não até 2005.

Quando reimaginou Dom casmurro, Domício Proença Filho decidiu fazer na mesma moldura do romance original, com as mesmas tiradas de humor, divisão de capítulos (sem títulos) e a o diálogo entre narrado e leitor, tão característico da obra machadiana.
Capitu, após sua morte, aprendeu com o “irmão” (creio por ser filho mesmo pai, Machado) Brás Cubas a narrativa além-tumular e começa o romance dizendo a que veio:


"Só agora, decorrido tanto tempo humano, posso, finalmente, contestar as acusações contra mim feitas pelo meu ex-marido, o Dr. Bento Santiago”. 
(PROENÇA FILHO, 2005, p.11)

A narradora mostra ciente de sua fama e agradece aos que não dão crédito às palavras do filho de D. Glória. 

Desde o primeiro capítulo começamos a perceber que a própria Capitu escreve para desmentir as acusações de adultério feita por Bentinho, ou seja, nessa releitura, não houve traição.

De acordo com a narrativa Bentinho sempre fora uma pessoa insegura, rancorosa, orgulhosa e, acima de tudo, dominado pela mãe e familiares. Capitu conta que ele estava sempre ruminando conversas e assuntos passados, debatendo, as vezes, consigo mesmo ideias que lhe vinham a cabeça e que começava a refletir sobre elas como se fossem verdades absolutas.

Foto: @cosmelanio

Um ponto a atentarmos no romance é a presença do próprio Escobar. A maneira como Bentinho o idolatrava, como mantinham “segredinhos” e a forma como parecia que o protagonista de Dom Casmurro gostava mais dele do que da própria Capitu.

Após os eventos que levam Bentinho a duvidar da paternidade de Ezequiel, as mudanças no casamento, a viagem e a morte do filho e dela mesma, Capitu não se sente culpada em nenhum momento. Muitas coisas são colocadas na cabeça do leitor, empurradas por um narrador ciumento e perturbado.

Ao fim, percebemos que o autor usa um recurso muito semelhante ao de Machado ao mostrar que Capitu também sofria, também se perguntava onde estaria o Bentinho de sua juventude. E ela sofria com isso.

Foto: @cosmelanio

Creio que ler Dom Casmurro para tentar entender o lado de Capitu é impossível. “Não é possível afirmar, por meio da investigação das marcas textuais no romance, que Capitu tenha ou não tenha traído Bentinho” afirma Andrea de Barros, Doutora em Teoria e História Literária pela UNICAMP à revista Sperinteressante.

Agora ler Dom Casmurro para entender o lado de Bentinho é possível, mas tendo o cuidado para lembrar que não existe apenas UM lado de cada personagem. Eu posso ler Dom Casmurro e acreditar fielmente nas palavras do narrador, como escolher naquilo que devo crer. Em algum momento ou as informações se contradizem, o que levaria por terra o lado que escolhera para crer, ou se complementam, confirmando a linha de raciocínio do leitor.

Um dos pontos que mais gostei no livro de Domício Proença é a chance, muito bem trabalhada por sinal, de dar a Capitu o direito à voz. Utilizando de recursos e de intertextualidade com a própria obra machadiana.

Não é um livro que vai salvar a personagem, nem fazer você ler Dom Casmurro de outra forma, mas é uma forma de acalmar, ao menos um pouquinho, os corações de quem crê na inocência da menina com olhos de ressaca.

Em uma enquete feita no meu perfil do Instagram (@cosmelanio) a grande maioria dos participantes considera a personagem Capitu inocente das acusações feitas por Bentinho, somando no total de 78 votos, correspondendo a 73% da votação. Os 27% restantes, correspondentes a 29 votos, concordam com o narrador de Dom Casmurro e culpam a co-protagonista pelas ideias e desconfianças do Dr. Bento Santiago. O resultado, na verdade, foi uma surpresa pra mim. Não esperava que a porcentagem que acredita no adultério fosse tão grande.  Apesar dos resultados, ressalto que não há provas, em parte alguma do romance, de que Capitu seja culpada ou inocente, o que predomina é a opinião de Bentinho. Acho que é a partir dessa realidade o por quê o narrador ser tão contestado. Isso me deixa feliz pelo fato de que quem lê o romance, sabe discuti-lo, inclusive para colocar em cheque a verdade de seu próprio narrador.

Curiosidade:

A escritora Lygia Fagundes Telles que chegou a publicar artigo demonstrando a culpa de Capitu, em 2009 declarou ter percebido, afinal, que Capitu era inocente.


REFERÊNCIAS PESQUISADAS

ASSIS, Machado. Dom Casmurro. São Paulo: Editora Ática, 1996.
PROENÇA FILHO, Domício. Capitu: memórias póstumas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.
ORÁCULO. Capitu traiu ou não traiu Bentinho em Dom Casmurro? In: Revista Superinteressante. Disponível em  https://super.abril.com.br/blog/oraculo/capitu-traiu-ou-nao-traiu-bentinho-em-dom-casmurro-de-machado-de-assis/.





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